“Por meio de uma comunicação estratégica, as organizações podem pautar agendas e gerar mudanças.  Esse é o poder da comunicação: o poder da escuta, da reflexão, da troca, da ação. Em rede, buscamos fortalecer vozes que inspirem narrativas inclusivas, plurais e transformadoras”.

Essa é a aposta do Narrativas, rede que será lançada durante o X Congresso GIFE, e traz à tona a importância, mais do que nunca, de uma comunicação que mobiliza e promove e fomenta o diálogo num mundo atual polarizado (veja detalhes do lançamento abaixo).

O Narrativas começou com oito instituições idealizadoras – Instituto Ayrton Senna, Instituto C&A, Mc&Pop Comunicação, Alana, GIFE, Instituto Unibanco, Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal e agência Cause – e pretende, a partir do Congresso, abrir espaço e incentivar a participação de qualquer profissional de comunicação interessado em fazer parte de uma rede de comunicadores que atua pelo interesse público.

Mariana Moraes, gerente de Comunicação do GIFE, destaca que a iniciativa surgiu a partir das reflexões despertadas pelo grupo de comunicadores brasileiros que têm participado das últimas edições do ComNet -The Communications Network Annual Conference, conferência internacional de comunicação na área social. Desde 2015, representantes do GIFE, de associados e outras organizações do Brasil se organizam para estar presente neste evento, que ocorre anualmente nos Estados Unidos e reúne mais de 500 profissionais líderes de organizações sem fins lucrativos e fundações de todo o setor social.

“Percebemos durante nossa participação na ComNet, em 2016, a importância de existir um fórum como este, que olhe para a prática do comunicador de organizações da sociedade civil, seus desafios e oportunidades. Como essa conferência é voltada para o contexto norte-americano, muitas vezes a realidade brasileira não era contemplada nas discussões, nem era esse o objetivo. Mas isso nos provocou a olhar para a nossa prática, a traçar paralelos e o anseio por um espaço semelhante, de constante diálogo e troca ficou latente”, relembra Fernanda Kalena, da equipe de Comunicação do Instituto Unibanco.

A ideia foi ganhando força e, ao longo de 2017, as organizações passaram a se encontrar informalmente para organizar o grupo, que agora se concretiza no Narrativas.

“Percebemos, ao longo dos nossos encontros, alguns pontos importantes para fortalecer a comunicação nas organizações. Um deles é o quanto as instituições são geradoras de conteúdo e conhecimento, com muitos dados, pesquisas etc., e que ainda não compreendem a importância e não sabem como disseminá-los de maneira a gerar de fato mobilização e pautar agendas na sociedade. Discutimos também o quanto as organizações precisam se unir para ter força e poder comunicar suas mensagens de maneira a promover impacto”, comenta Mariana Moraes.

Outro ponto central apontado pelo Narrativas é acreditar na comunicação não como ferramenta a serviço de algo, mas ela ser a própria estratégia, afinal, para transformar é preciso comunicar.

“A comunicação é impulsionadora de ações de engajamento e mobilização. A comunicação realizada em qualquer organização quando é vista como ferramenta fica restrita ao operacional, ao mecânico, desperdiçando sua potência de transformação e conscientização social. Os comunicadores que trabalham em organizações da sociedade civil possuem o desafio cotidiano de mobilizar a sociedade para os temas que são o foco da organização que representam, sejam elas questões ambientais, relacionadas à saúde ou educação. Não estão vendendo produtos ou serviços, nem reportando notícias em tempo real. Estão instigando a reflexão coletiva sobre os direitos de cada indivíduo, na busca por uma sociedade mais justa e equânime”, ressalta Fernanda.

Diante desse desafio diário é que o grupo acredita ser fundamental a criação de uma rede como o Narrativas que, segundo Sandra Mara Costa, diretora da Mc&Pop Comunicação, vem fortalecer o trabalho dos profissionais do setor.

“A participação em um grupo como este promove qualificação e nos permite fortalecer a rede de relacionamentos. Na medida em que nos qualificamos, podemos atuar de forma mais efetiva e estratégica nas organizações sociais o que, consequentemente, gera impactos positivos na forma como essas organizações atuam em suas causas também. É todo um círculo virtuoso que se cria. Há uma enorme responsabilidade no trabalho da comunicação de interesse público e os profissionais precisam estar preparados para ela. A comunicação pode fazer muito para ajudar as organizações e movimentos sociais a terem sucesso em seu trabalho pela garantia de direitos, com reflexos diretos sobre a democracia e a justiça social”, aponta Sandra.

O nome ‘Narrativas’, inclusive, expressa o desejo de trazer à tona narrativas inclusivas, plurais e transformadoras. “Achamos que o mundo contemporâneo já não comporta narrativas únicas, hegemônicas, que representem apenas alguns segmentos. É papel do comunicador social revelar situações e histórias que nos impulsionem a evoluir”, completa Sandra.

Atividades no Congresso:

O lançamento oficial da rede,  será realizado no dia 5 de abril, às 16h30, no Congresso GIFE. Na ocasião, será colocado no ar o site do Narrativas, que será dedicado à difusão de conhecimento sobre comunicação de interesse público. Construir um acervo de práticas, entrevistas, artigos e estudos voltados à temática é uma das prioridades para este ano. Outra é produzir um mapeamento de profissionais que atuam no setor. O grupo também terá reuniões periódicas e os interessados em fazer parte da rede poderão obter mais detalhes no dia do Congresso.

Para marcar o início das atividades da rede, o Narrativas preparou uma programação especial no Congresso. A primeira delas, no dia 5, às 16h30, será o debate “Comunicação no centro da mudança e lançamento da rede Narrativas”, que contará com a participação de Gabriel Brakin, vice-presidente de negócios da Participant Media, empresa baseada em Los Angeles (EUA), dedicada ao entretenimento que inspira mudanças sociais. Os mais de 75 filmes da empresa incluem Spotlight, Contagion, Lincoln, An Inconvenient Truth, entre outros. Os filmes da empresa já receberam 52 indicações ao Oscar e tiveram 12 vitórias, incluindo Melhor filme para “Spotlight” (2015) e Melhor Documentário para “Citizenfour” (2014), “The Cove” (2009) e “An Inconvenient Truth” (2006).

A Participant Media trará suas histórias, cases e estratégias sobre como usar o poder dos filmes e do entretenimento para produzir reflexões e gerar mudanças concretas. Eles acreditam que, se quisermos mudar o mundo, vamos precisar aprender a nos comunicar. A conversa será conduzida por Luana Lobo, sócia-fundadora da Maria Farinha Filmes, produtora de filmes como Além do Peso, O Começo da Vida e Nunca me sonharam, e tem sido referência no uso do audiovisual como ferramenta de transformação social.

Em seguida, das 18h30 às 20h, serão realizadas três mesas simultâneas, também sobre comunicação. A primeiras delas terá como tema: “Por que apostar no audiovisual para provocar transformação”.   Carolina Pasquali, diretora de Comunicação do Alana; Ana Carolina Vidal, coordenadora de Comunicação da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal; e Tiago Borba, gerente de Planejamento, Articulação e Comunicação do Instituto Unibanco, e mediação de Mariana Moraes, gerente de Comunicação do GIFE, irão refletir sobre como a estratégia de audiovisual, quando combinada com outras ações (como construção de parcerias, relacionamento com a mídia, inserção nas redes sociais, e advocacy, por exemplo) pode ser o fator de sucesso para mudança de comportamento e transformação. Na mesa, serão apresentadas as trajetórias dos filmes “O Começo da Vida” e “Nunca me Sonharam”.

A segunda mesa falará sobre “Desafios da mobilização: como transformar comunicação em ações concretas”.  A proposta é discutir como, a partir de campanhas e usando a comunicação de causas como ferramenta, é possível levar indivíduos e sociedade a diferentes estágios de engajamento. Curtir a página de um movimento, ir a uma manifestação, assinar uma petição, cobrar a mudança ou criação de uma política pública. A mesa pretende, a partir de cases, mostrar como fazer com que indivíduos que a princípio estavam alheios a uma determinada discussão se tornem agentes de mudança em nossa sociedade.

À frente do debate estarão: Miguel Lago, coordenador de campanhas do Meu Rio; Ana Maria Melo, uma das coordenadoras do movimento Põe no Rótulo – grupo de mães que mobilizou a sociedade e vem sensibilizando diversos atores para a temática da alergia alimentar e, em 2015 influenciou e apoiou a ANVISA na aprovação da RDC 26/15, norma de regulamenta o destaque de alimentos alergênicos nos rótulos de alimentos e bebidas industrializadas -; Adriana Charoux, campaigner na campanha da Amazônia no Greenpeace; com mediação de Francine Lemos, sócia-diretora da CAUSE.

Na mesa, serão apresentados cases como o do Greenpeace, a campanha Carne ao Molho Madeira, que completou um ano do lançamento do relatório, que mostrou como as sete maiores redes de varejo do Brasil lidavam com o problema de fornecimento de carne proveniente de áreas de desmatamento. A avaliação revelou que nenhum supermercado conseguia garantir que 100% da carne comercializada era livre de crimes socioambientais.

E, por fim, a terceira mesa irá discutir sobre “Mídia, fake news e os riscos à democracia”, com a participação de Pedro Telles, representante do time de Governance & Citizen Engagement da Omidyar Network no Brasil, organização que está entre os maiores financiadores de iniciativas relacionadas a fortalecimento da democracia e engajamento cívico no mundo; Leonardo Sakamoto, jornalista e professor de Jornalismo PUC-SP; e Ana Freitas, pesquisadora da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

O tema deste debate se torna ainda mais relevante tendo em vista que teremos eleições presidenciais em um momento atribulado politicamente, no qual posições radicais e estratégias de desinformação têm ganhado cada mais espaço no debate. Nesse contexto, a importância de se discutir comunicação, jornalismo e democracia olhando para fenômenos como notícias falsas e o uso de robôs em redes sociais se coloca de forma muito relevante – especialmente se observamos o impacto que esses fenômenos tiveram recentemente em outros países, como na eleição de Trump nos EUA e nos votos de ingleses que decidiram tirar seu país da União Europeia.

A conexão entre a proliferação das notícias falsas e robôs, o fortalecimento do jornalismo e o investimento social pode não parecer tão óbvia num primeiro momento, mas na verdade esses temas estão diretamente conectados, já que um debate público empobrecido ou distorcido impacta a postura do governo e da sociedade, a construção de políticas públicas e a defesa de causas importantes. O trabalho de muitas organizações e lutas de anos sobre temas diversos como gênero, raça e trabalho escravo, por exemplo, pode se ver ameaçado por uma enxurrada de notícias falsas sobre eles.

Para que continuemos capazes de produzir mudanças positivas na sociedade e de barrar retrocessos, precisamos entender esses desafios e refletir sobre quais estratégias podem ser adotadas frente a eles. É importante não subestimar a força da comunicação. As perguntas que precisamos responder são: qual exatamente é o tamanho do problema, e o que podemos fazer para preservar o ambiente de debate público?

Uma das iniciativas a ser apresentada na mesa será a pesquisa da FGV “Robôs, redes sociais e política no Brasil”, levantamento que mostrou que contas automatizadas motivam até 20% de debates em apoio a políticos no twitter, impondo riscos à democracia e ao processo eleitoral de 2018.

As atividades do Grupo Narrativas no Congresso são abertas ao público gratuitamente. Veja no site do evento como participar.

 

Fonte: GIFE