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Começo de ano pede um balanço do que passou e planos para o próximo ciclo. Por mais que a mudança no calendário seja apenas uma convenção, simbolicamente a virada propõe reflexões. Nessa primeira edição do boletim redeGIFE de 2017, fica o convite para alguns personagens que marcaram presença nas edições do ano passado para apontar destaques, desafios e arriscar algumas apostas para o futuro. Em pauta: o fortalecimento da cultura de doação no Brasil.

Nas redes sociais muita gente ansiava o término de 2016 – um ano marcado por crises, conflitos ao redor do mundo e perdas significativas no meio da cultura. Contudo, no campo social, o ano também foi de muitas conquistas. Em meio à escassez de recursos, o setor se movimentou e iniciativas com grande potencial de transformação surgiram para favorecer e ampliar o engajamento filantrópico da sociedade por meio do fomento à cultura de doação.

Entre elas, destaque para a Captamos, um espaço de aprendizagem e troca de conhecimento em captação de recursos, que visa fortalecer as organizações da sociedade civil e, principalmente, o seu financiamento. Ainda na linha da geração de conhecimento, vale ressaltar a importância do Mapa das Organizações da Sociedade Civil, uma plataforma que apresenta dados relativos às organizações sociais atuantes no país a partir das próprias bases de dados do Governo Federal.

Outro marco de 2016 foi a consolidação da  Força Tarefa de Finanças Sociais, um movimento em amplo crescimento dedicado a identificar, conectar e apoiar organizações e temas estratégicos para o fortalecimento do campo das Finanças Sociais e dos Negócios de Impacto no Brasil.

Todas essas iniciativas – isoladas e em composição – contribuem para uma compreensão mais profunda sobre o significado da cultura de doação no país. Aos poucos, novos agentes vão chegando ao campo, iniciativas vão surgindo e as formas de mobilização de recursos vão se transformando. No fim da linha, o que se percebe é uma sociedade civil fortalecida.

Rodrigo Alvarez, sócio-diretor da Mobiliza e articulista voluntário da Plataforma Captamos, lembra que 2016 foi um ano de muita instabilidade, mas que o cenário adverso acabou mobilizando ideias inovadoras que agitaram o campo social.

“Foi um ano difícil, onde a criatividade e a capacidade de fazer alianças foi colocada à prova para muitas organizações. Minha expectativa é que, em meio a mais um ano que aponta ser de baixo crescimento, as organizações sociais revejam seu papel diante do mundo que vivemos e se tornem cada vez mais relevantes. Algumas iniciativas para fortalecer a cultura de doação e mobilização de recursos – como o Fundo Bis e a Captamos – certamente darão o que falar em 2017″, aposta.

Contudo, ele lembra que a crise que marcou o ano passado deve continuar em 2017. “O maior desafio pelo qual atravessam as organizações sociais nos últimos anos é a crise política e econômica que assola o Brasil, que impactou significativamente o setor sem fins lucrativos. Além de ser uma crise que diminui a disponibilidade de recursos das pessoas (de fato ou por precaução), trata-se também de uma crise de confiança e de representação, ou seja, a confiança nas pessoas e nas instituições está abalada e as ONGs também viram alvo dessa desconfiança.”

O consultor sublinha que essa crise de confiança pode elevar as organizações da sociedade civil a um novo lugar no imaginário do brasileiro. Isso se porque o clima de descrédito na democracia representativa pode fortalecer o papel das ONGs como agentes transformadores da sociedade e defensoras dos direitos dos cidadãos.

Dia de Doar 

A pesquisa Doação Brasil, liderada pelo IDIS (Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social) aponta que 77% dos brasileiros (ref. 2015) fazem algum tipo de doação. A prova disso é o #diadedoar, um dos maiores marcos da cultura de solidariedade no calendário anual. A iniciativa, que busca impulsionar o financiamento (ou ação voluntária) de instituições, projetos e causas sociais no Brasil, é organizado pelo Movimento por uma Cultura de Doação.

Apesar dos dados ainda não estarem plenamente consolidados, estima-se que mais de R$ 540 mil foram doados em razão da campanha – o número deve superar a marca de R$ 600 mil após o fechamento do montante mobilizado via PayPal.

João Paulo Vergueiro, diretor executivo da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR) e membro do conselho do Dia de Doar, explica que, deste valor, mais de R$ 54 mil foram doados para 31 organizações na plataforma Juntos.com.vc, um aumento de 40% em relação ao ano passado. Outro grande resultado da edição foi a presença da hashtag nas redes sociais. “Apenas no Facebook, a tag #diadedoar teve 35.483 interações, alcançando um público potencial de mais de 7 milhões de brasileiros. Já no Instagram foram 24.967 interações, e 2 milhões de alcance potencial.”

A cada ano, mais pessoas e organizações se juntam ao movimento. Em 2016 foram mais de 1.300 parceiros cadastrados no site – entre organizações sociais, empresas e indivíduos. João Paulo destaca ainda que, pela primeira vez, cidades inteiras se mobilizaram para fazer campanhas do #diadedoar, como Sorocaba (SP), Petrópolis (RJ), Lorena (SP), e Esteio (RS), por exemplo.

No campo das políticas públicas, 2016 também foi um ano de avanços. Foram aprovadas leis oficializando a realização local do #diadedoar na cidade de Limeira (SP), por exemplo. E, em São Paulo, a Secretaria de Cultura do Estado realizou uma campanha com o título #doeparaaculturasp, mobilizando diversos museus e instalações culturais, como Pinacoteca, Museu Afro, entre outros. Ou seja, um ano para celebrar.

Inovação

Mecanismos que associam o momento do consumo ao ato de doar têm crescido no Brasil. Prova disso é a consolidação do modelo de atuação do Movimento Arredondar, associado GIFE. A ideia é promover a cultura da doação a partir da cooperação coletiva, canalizando os resultados para o fortalecimento de ações sociais. Nessa iniciativa, os clientes das lojas parceiras do movimento, no momento de finalização da compra, são convidados a arredondar os centavos do valor total e fazer uma doação.

Os resultados de 2016 comprovam o sucesso da operação: foram mais de 3 milhões de doações em lojas de 24 varejistas que participam do projeto. Atualmente 21 organizações sociais se beneficiam do recurso, aplicando as doações em causas relevantes.

Uma aposta para 2017 é o Welight, uma tecnologia que viabiliza o financiamento de organizações da sociedade civil a partir de compras online. A operação é simples: o usuário instala um aplicativo em seu computador que, no momento da compra em lojas cadastradas, pergunta se a doação pode ser realizada. O diferencial é que não há custo para o usuário. O recurso doado provém da comissão de venda que as marcas investem em plataformas chamadas redes de afiliação – ou seja, mecanismos que impulsionam o alcance dos anúncios.

Já fazem parte da iniciativa grandes varejistas como Walmart, NetShoes, Centauro, Ponto Frio, O Boticário, entre outras 1500 lojas no Brasil e no mundo. A rede de organizações beneficiadas é composta por Fundação Amazônia Sustentável, Saúde Criança, Conservação Internacional, Instituto Todos na Luta e outras entidades atuantes em causas de diversas naturezas.

“O Welight inova no campo social ao direcionar recursos da economia que já estão em circulação por meio do e-commerce para financiar projetos de organizações escolhidas criteriosamente, com alto grau de impacto e reconhecimento, que já contribuem com transformação social e ambiental no planeta. Isso abre uma nova perspectiva de financiamento para essas organizações, com grande potencial para tornar-se uma fonte realmente importante de recursos, já que estamos falando de um mercado que movimentou em 2016 aproximadamente U$2.5 trilhões”, avalia Ian Lazoski, co-CEO do Welight.

Ian explica que o diferencial do Welight é que, além de aproximar as pessoas do resultado real de sua colaboração, calcula o impacto individual, não somente pelas compras realizadas, mas somando as doações geradas por todas as pessoas que entram na plataforma direta ou indiretamente por meio do convite do usuário. “A ideia possibilita que qualquer pessoa possa gerar um impacto em larga escala, simplesmente por engajar seus amigos, até mesmo se não fizer compras. É uma fórmula simples e eficaz para multiplicar o bem, que não exige esforço ou gasto algum.”

Via Gife