Quando falamos sobre a atuação do terceiro setor, alguns desafios tornam-se evidentes e, em consequência, afetam o desenvolvimento local sustentável. Vários destes desafios foram abordados no 10º Encontro Nacional do Terceiro Setor (ENATS), realizado nos dias 2 e 3 de junho de 2014. O Encontro ocorreu em Belo Horizonte, fruto da parceria entre o Centro Mineiro de Alianças Intersetoriais (CeMAIS), a Federação Mineira de Fundações e Associações de Direito Privado (FUNDAMIG) e o Centro de Apoio Operacional às Alianças Intersetoriais do Ministério Público de Minas Gerais (CAOTS/MG), em torno da temática “Agenda de Cooperação Intersetorial”. No Encontro, foram discutidos os desafios mais pertinentes para o setor, os quais serão apresentados de forma resumida a seguir.

  1. Falar do terceiro setor implica, antes de tudo, identificar o seu significado, o que consideramos como seu primeiro desafio. Seu conceito é muito frágil e ainda muito estratificado – há, por exemplo, organizações que atuam na área da saúde, da educação ou de esportes, as quais se consideram distintas entre si. O resultado é a competição generalizada entre organizações do mesmo setor e o desvio da cooperação, que deveria ser incentivada. A clareza do que é o terceiro setor e o compartilhamento deste entendimento é fundamental para gerar colaboração.

  1. Além da colaboração intrassetorial, identifica-se a necessidade de maior envolvimento do setor público. Ele não pode mais ser omisso frente à destruição da cultura e do desenvolvimento local. Isto é visto, inclusive, como uma forma de sustentabilidade política para o atendimento dos interesses da sociedade. Portanto, para a superação do segundo desafio são imprescindíveis a gestão municipal e a gestão interna (no âmbito das organizações da sociedade civil – OSC) que, conjuntamente, irão fortalecer o capital social. (Segundo Putnam, é o conjunto de crenças compartilhadas que melhoram o desempenho dos Estados democráticos. Exemplo: confiança).

  1. Outro desafio que precisa ser superado refere-se às atividades realizadas pelas OSC. Tais atividades têm atingido principalmente o sujeito-alvo da ação, deixando pouco espaço para a atuação visando ao desenvolvimento local sustentável. A busca pela formação de ambientes trissetoriais para tratar do desenvolvimento local sustentável deve ser instigada e constantemente aprimorada, pois não é possível pensar mais em desenvolvimento local como a responsabilidade de um setor apenas.

  1. Além dessas observações, um quarto desafio se configura. Trata-se da verdadeira participação da comunidade na formulação das políticas públicas e de projetos advindos de empresas. Para se fortalecer, essa participação tem que ocorrer nos processos, nas estratégias e nas decisões. Convidar um grupo representante da sociedade civil para a participação em um evento de lançamento de política pública ou projeto desenvolvido pelo setor privado, e dizer que a comunidade está participando, enquanto, na realidade, ela não fez parte do processo de sua elaboração, não pode ser chamado de participação.

  1. Questões relacionadas ao financiamento de projetos também se constituem como fator problemático. Atualmente, financia-se o projeto, enquanto uma opção seria passar para o financiamento da organização. Dessa forma, ela teria a possibilidade de alocar os recursos para mais de um projeto, podendo multiplicar suas ações. Além disso, uma visão negativa com a qual o terceiro setor tem que lutar, atribuída a ele, é a de que não pode haver fluxo de caixa. Este é, provavelmente, o desafio mais ardiloso para o setor, que deve continuar insistindo para avançar nas estruturas de financiamento atuais.

Além dos desafios apresentados, outros também merecem atenção. É o caso da profissionalização, que deve ocorrer não apenas internamente à organização, mas estender-se aos entes parceiros, principalmente aqueles que repassam o recurso. A inovação também deve fazer parte das atividades deste setor, ao invés de ser vista como um elemento presente e necessário apenas para as empresas. E, por fim, a falta de clareza de comunicação entre os setores atinge os trabalhos das diversas organizações de modo negativo. O discurso da intersetorialidade precisa ser fortalecido e este, talvez, seja o desafio mais premente para as organizações e para o impulso de que precisamos rumo às práticas de desenvolvimento local sustentável mais transformadoras, consistentes e duradouras.

Como pôde ser visto, o evento trouxe à baila assuntos relevantes para o terceiro setor que, em diversas vezes, transcendem a sua atuação isolada, demandando práticas intersetoriais para a superação de seus desafios. Um dos papéis do Centro de Referência em Governança Social Integrada (CRGSI) do Núcleo de Sustentabilidade da FDC consiste em participar dos debates atuais que lidam com questões de seu escopo. Por essa razão, os desafios abordados pelo 10º ENATS serão tratados em textos subsequentes, tendo-se em mente as soluções por meio da participação trissetorial, apresentando, dessa forma, os conhecimentos adquiridos pelo CRGSI ao longo de sua criação. Deste modo, o CRGSI pretende desempenhar seu papel de articulador da comunicação entre os setores, abrindo um novo espaço para a reflexão acerca das propostas herdadas do 10º ENATS.

 Fonte: FDC