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A sociedade tem questionado e exigido do setor empresarial, cada vez mais, uma postura responsável e, mais do que isso, ativa frente aos desafios e demandas sociais, ambientais e culturais que se colocam todos os dias no mundo.

Trust Barometer 2018, que acaba de ser lançado pela Edelman e mede atitudes sobre o estado da confiança de países com relação às suas quatro instituições regentes – negócios, governo, ONGs e mídia -, mostra isso claramente. Segundo a pesquisa, 64% dos respondentes acreditam que uma empresa pode tomar ações que aumentam os lucros e melhoram as condições econômicas e sociais na comunidade onde atua.

No ano passado, a credibilidade com relação a CEOs teve um expressivo aumento de sete pontos, indo para 44% depois que vários líderes de grandes empresas expressaram suas posições sobre questões sociais e políticas. Quase dois terços dos entrevistados dizem desejar que CEOs assumam a liderança na mudança de políticas ao invés de aguardar o governo, que agora tem seu nível de confiança muito abaixo do de negócios em 20 dos 28 mercados que participam do Trust Barometer.

“O consumidor está mais preocupado e consciente dos direitos humanos e que suas escolhas na hora da compra valem muito. Ele quer saber, por exemplo, como aquela organização se relaciona com seus fornecedores e colaboradores, em quais causas atua, e que ingredientes utiliza num produto.  Esta é uma excelente notícia, mas ainda é um movimento que está começando. Nós vemos isso com alegria, mas também como um grande desafio porque sabemos que a magnitude e complexidade das questões do desenvolvimento sustentável exigem uma abordagem muito mais ampla e radical do que vem sendo feita até hoje”, pondera Janice Rodrigues, gerente da área de Sustentabilidade da Natura.

Atentas a essa demanda, muitas empresas têm se engajado em iniciativas que visam inseri-las nas novas agendas globais, como a implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), o combate às desigualdades, à promoção da democracia no país etc. Esse é o caso da Rede Brasil do Pacto Global — movimento do setor privado para promover os direitos humanos e a sustentabilidade. Em 2018, a rede completa 15 anos e observa um constante crescimento de novos aderentes às suas propostas.  Só para se ter ideia o grupo passou de 28 companhias signatárias para 756.

Criada em 2003, três anos após o lançamento do movimento a nível mundial, pelo então secretário-geral da ONU, Kofi Annan, a missão da Rede Brasil continua sendo a defesa dos 10 Princípios do Pacto Global. A lista inclui metas sobre trabalho decente, combate à corrupção e responsabilidade ambiental. Após a adoção pelos países-membros da ONU dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, em 2015, o Pacto Global incorporou essa nova agenda às suas estratégias.

No Brasil, a iniciativa mantém atividades em seis áreas — gestão da água; alimentos e agricultura; anticorrupção; energia e clima; ODS; direitos humanos e trabalho; e engajamento e comunicação.

“Este cenário de engajamento é surpreendentemente positivo e mostra claramente uma pressão da sociedade para que as empresas exerçam uma postura ‘cidadã’, para além do lucro financeiro. A pergunta central é ‘como aliar lucro e competitividade a propósito da sustentabilidade’? Precisamos ter em mente que o papel das empresas é central para o alcance dos ODS, por exemplo, já que o setor privado é crucial no desenvolvimento de novas tecnologias, infraestrutura e empregabilidade. Um dos pilares centrais da Agenda 2030 é ‘não deixar ninguém para trás’ e as empresas têm responsabilidade crucial na inclusão e no desenvolvimento econômico e social”, ressalta Mariana Rico, gerente de sustentabilidade da Estre e Instituto Estre, membro da Rede Brasil do Pacto Global.

Na opinião de Mariana, é fundamental o estabelecimento de agendas globais – como é o caso dos ODS – e outras setoriais para as empresas se engajarem. “Sozinha uma empresa tem restrita possibilidade de impacto. Já quando olhamos o setor e agendas globais, fazemos com que as empresas remem juntas para objetivos semelhantes. No caso da Estre, o core do nosso negócio é prover soluções ambientais com foco em resíduos e, infelizmente no Brasil, ainda temos desafios imensos em relação a esta questão, causando danos seríssimos ao meio ambiente e à saúde das pessoas. Acredito que cada vez mais o core das empresas estará alinhado aos desafios sociais e ambientais das localidades aonde atuam, caso da nossa empresa”, comenta a gerente.

A empresa tem alinhado suas ações, por exemplo, diretamente a uma série de metas propostas pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. “Considerando um cenário brasileiro, aonde mais de 40% de toda a geração de resíduos tem destinação imprópria, a Estre trabalha ativamente para mudar este cenário e prover uma solução adequada para a destinação de resíduos. Os ODSs 6, 11 e 12 abordam diretamente o desafio dos resíduos, que não é exclusividade do Brasil. Os temas de água (ODS 6), saneamento (ODS 6), consumo (ODS 12) e principalmente cidades inteligentes (ODS 11) atacam esta questão”, destaca Mariana.

O mesmo movimento tem sido estabelecido também em outras companhias. Beatriz Azeredo, diretora de Responsabilidade Social da Globo, lembra que empresas e investidores sociais têm muito a contribuir para o avanço de agendas de interesse público e, no caso da Globo, esse tem sido um compromisso, principalmente na mobilização da sociedade em torno de grandes temas sociais, especialmente educação, sustentabilidade, qualidade de vida e direitos Humanos.

“A Globo pode contribuir para estimular mudanças de comportamento. Falamos com 100 milhões de pessoas todos os dias. Nosso papel é tornar os ODS objeto de conversa e mostrar que cada um faz a diferença nessa agenda e, portanto, ela deve ser encarada como prioridade para superar grandes desafios como acabar com a pobreza, reduzir as desigualdade e injustiças e combater as mudanças do clima. Em 2018, queremos aproximar ainda mais o público dessa agenda, que deve ser uma prioridade de todas as gerações”, comenta Beatriz.

Na Natura, que também é membro do Pacto Global, o engajamento se dá também em outros campos, como é o caso do movimento de empresas B Corp certificadas, uma rede global de empresas que associam crescimento econômico à promoção do bem-estar social e ambiental. A proposta é que, mais do que ‘competirem para serem as melhores do mundo, as empresas B buscam ser as melhores para o mundo’, transformando desafios sociais e ambientais em oportunidades de negócios que gerem impacto positivo para os cidadãos.  Cerca de 1.200 empresas internacionais já conquistaram o selo B Corp. No Brasil, a Natura e outras 100 companhias têm a certificação.

“Queremos e trabalhamos para que toda a nossa empresa gere impacto positivo nos pilares social, ambiental, cultural e econômico, conforme explícito na nossa Visão de Sustentabilidade 2050. Sabemos que é um desafio complexo, no qual estamos em constante evolução e que nos exige disposição para desafiar constantemente o modelo tradicional e nos reinventarmos a cada dia. Para isto temos como filosofia e prática transformar os desafios socioambientais em motores de inovação da companhia. É o que aconteceu, por exemplo, com o uso sustentável dos ativos da sociobiodiversidade que hoje é a nossa principal plataforma de inovação, característica reconhecida externamente e fonte de diferenciação para a nossa marca”, ressalta Janice.

Na Amazônia, por exemplo, a empresa gera renda e desenvolvimento social para mais de 4,5 mil famílias, e preserva 257 mil hectares de florestas, estimulando uma economia da Floresta em Pé. Outro exemplo é o Programa Natura Carbono Neutro que, há mais de uma década, mede toda a cadeia de valor da companhia, reduzindo ao máximo o gás carbônico emitido, e compensando aquilo que não pode ser reduzido em projetos de alto impacto socioambiental positivos.

Além disso, como membros do Pacto Global, a empresa fez uma análise de impactos para avaliar o potencial transformador da atuação da Natura em relação aos 17 ODS. Esse levantamento apontou que, por meio de nossas iniciativas relacionadas a temas como carbono, resíduos, empoderamento feminino, educação, água, biodiversidade e Amazônia, a empresa contribui de forma direta e indireta, para 16 dos 17 ODS.

Papel das empresas em debate

Como não poderia deixar de ser, o próximo Congresso GIFE, que será realizado de 4 a 6 de abril, trará para o debate uma reflexão sobre o lugar das empresas no século XXI, como partes incidentes e atuantes que são, e na sociedade que queremos construir, assim como o potencial de crescimento, qualificação e aporte do investimento social empresarial no Brasil.

Assim, a programação contará, por exemplo, com duas mesas focadas nesta discussão: “Fronteiras entre o público e o privado: o lugar das empresas na coletividade” e “Público, privado e comum: chamados para novos campos de ação” (veja detalhes no site e se inscreva).

Para fortalecer ainda mais essa conversa, o GIFE acaba de lançar novos materiais a respeito do tema. O primeiro deles é a publicação “Guia de tendências e práticas do investimento social empresarial”, resultado do “Encontro GIFE de Investimento Social Empresarial”, realizado no dia 25 de outubro de 2017 (veja matéria completa), que teve como objetivo o aprofundamento das principais questões desse universo do ISP, possibilitando, por um lado, um espaço de troca e aprendizagem para os associados empresariais da rede GIFE e novos atores do campo e, por outro, a reflexão sobre temas desafiadores do investimento social empresarial, como o sentido público do ISP e o lugar das empresas na esfera pública.

“O encontro buscou, também, iluminar as fronteiras e os passos adiante na afirmação de um paradigma em que as empresas surgem com uma inserção mais orgânica, saudável, positiva e sustentável na sociedade. No caminho de construção continuada desse novo paradigma que nasce e se fortalece no país a partir da constituição do marco fundamental da responsabilidade social corporativa e do investimento social empresarial, as reflexões do encontro trataram de aprofundar o olhar sobre essa inserção positiva das empresas, suas formas de atuar e a relação com os principais parceiros, além de todo o debate em torno de ideias que perpassam as agendas de sustentabilidade, valor compartilhado, ativismo corporativo, sistema B e negócios de impacto”, destaca na abertura da publicação José Marcelo Zacchi, secretário geral do GIFE.

Materiais relevantes

Além deste material, o GIFE disponibiliza também dois novos vídeos. O primeiro apresenta “Reflexões sobre o Investimento Social Empresarial”, complementando os debates realizados no evento e, o segundo, sobre “Alinhamento entre o ISP e o negócio”, discussão também presente na publicação “Alinhamento entre o Investimento Social Privado e o Negócio”, lançada em (2016) como parte da série “Temas do Investimento Social”.

Confira também outras publicações já lançadas pelo GIFE, como o “Guia das Melhores Praticas de Governança para Institutos e Fundações Empresarias” (2014), que aborda conceitos básicos e instrumentos fundamentais para orientar organizações da sociedade civil e, em particular fundações e institutos empresariais, na condução de mudanças efetivas e positivas no seu processo de governança,

Veja ainda dados sobre o investimento social empresarial no último Censo GIFE.

 

Fonte: GIFE