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O debate sobre desigualdade no Brasil, muitas vezes, passa apenas por um olhar sobre a renda ou até mesmo a riqueza e o patrimônio da população. Mas, será que essa discussão é suficiente para conseguirmos, de fato, desvelar a situação pela qual grande parte da população brasileira vive atualmente? Será que o valor de algo é realmente igual para aqueles que não tem nada e para os que tem muito?

O conceito de “bem de capital” pode ser relativo quando, por exemplo, refletimos sobre o que é um investimento para um agricultor familiar pobre com uma pequena propriedade no semiárido brasileiro. Para ele, ter uma cisterna e acessar energia elétrica, pode ser a diferença entre passar fome ou não, se manter em sua terra, produzir e viver com dignidade ou abandoná-la. Ou seja, será que essa água e a energia elétrica também não são bens? Será que elas ‘valem’ da mesma maneira para um brasileiro que vive nos grandes centros urbanos e já contam com esses direitos há tanto tempo?

Para alguns especialistas, estes bens que não são contabilizados nas estatísticas que avaliam patrimônio e renda, são também essenciais de serem mensurados para compreender a redução da desigualdade que operou no Brasil durante os últimos anos. O alerta é que o olhar sobre a desigualdade não pode ignorar a necessidade de superar a assimetria de acesso a bens e serviços, tendo em vista que uma parcela expressiva da população vem vivendo à margem de condições mínimas de vida.

Foi a partir dessa perspectiva que Tereza Campello, economista, pesquisadora associada da FIOCRUZ  e ex-ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, organizou a pesquisa “Faces da Desigualdade no Brasil – um olhar sobre os que ficam para trás”, que constitui uma das contribuições ao Programa Agenda Igualdade desenvolvido pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, FLACSO Sede Brasil, e o Conselho Latino-americano de Ciências Sociais, CLACSO, e contou com apoio da Fundação Ford.

A proposta foi adicionar ao escopo da análise econômica uma perspectiva mais humanizada sobre as faces que a desigualdade pode assumir numa sociedade como a brasileira, ampliando uma visão crítica que apoie a compreensão sobre as múltiplas situações de privações de direitos e as políticas que podem contribuir estrategicamente na mitigação das desigualdades.

“Precisamos entender que há questões determinantes aqui. O acesso – ou o não acesso – à água, saneamento, energia, educação, saúde, moradia e bens de consumo como geladeira, telefone, dentre outros, não são dimensões periféricas da desigualdade. A urgência e a prioridade de acesso a estes direitos aos mais pobres podem ocorrer concomitantemente às mudanças estruturais que demandam tempo de implementação, ou seja, são a longo prazo”, ressalta Campello.

A publicação traz diversas análises sobre parte dos avanços brasileiros na redução das desigualdades durante o período 2002-2015. A proposta foi colocar uma lupa sobre os 5% e os 20% mais pobres da sociedade brasileira e perceber o processo silencioso de inclusão e redução de parte importante das desigualdades ocorridas, em comparação ao universo da população usando os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad).

Os dados surpreendem. Entre 2002 e 2015, por exemplo, foram 12 milhões de famílias negras cujos pais e mães passaram a ter ensino fundamental completo, 22 milhões de lares a ter acesso a água de qualidade, 24 milhões de domicílios a possuir geladeira. Não tinham e passaram a ter (veja mais dados ao final da matéria).

Para discutir os resultados e apresentar esse novo olhar sobre o debate a respeito da desigualdade, o redeGIFE realizou uma entrevista exclusiva com a ex-ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Confira abaixo os principais pontos da conversa:

redeGIFE – Você diz que a desigualdade deve ser vista como fenômeno multidimensional e relacional e, portanto, não podemos analisá-la apenas do ponto de vista da renda ou da riqueza. Como estas pesquisas já realizadas até agora e os novos dados trazidos pelo estudo de vocês, nos ajudam a ter um olhar mais amplo para compreender as faces da desigualdade no nosso país?

Tereza Campello – Estamos num momento de acúmulo de conhecimento sobre a questão da desigualdade. A construção do Coeficiente de Gini [calculado a partir dos dados Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD – que aponta a diferença entre os rendimentos dos mais pobres e dos mais ricos] foi um debate importante, pois até então não se discutia esse conceito de desigualdade, só de pobreza. Olhar a desigualdade do ponto de vista de renda gerada pelo trabalho continua sendo estratégia fundamental. Foi possível vermos, por exemplo, que tivemos períodos da história brasileira em que a riqueza nacional, como o PIB, cresceu muito na década de 60 e 70 e a desigualdade aumentou como em poucos momentos da história. Vimos o país crescendo a taxas altíssimas e a desigualdade aumentando de forma fenomenal. Ou seja, quanto mais o país crescia, mais pobre a população ficava. Vimos que essa desigualdade aumentou muito entre as décadas de 60- 80, depois o país ficou estagnado e a desigualdade também, mas em um período recente, temos uma mudança na história brasileira que nunca tínhamos visto, que é: o país cresceu de 2002 a 2010 e a desigualdade caiu. Essas duas curvas se cruzaram pela primeira vez na história. Essa é uma informação importante, mas não é suficiente para entender o país.

Outros dados sobre desigualdade que começamos a ter foi a partir de 2000, com a metodologia nova, desenvolvida pelo pesquisador e economista Thomas Piketty. Ele lembrou que esse olhar sobre a renda não era suficiente para entender o que estava acontecendo com os ricos. É importante entender o que é a renda: é o que você tem mensalmente como fruto do seu trabalho e, para os ricos, é o resultado do rendimento da riqueza, do patrimônio: o que eu tenho de capital acumulado rendendo nos bancos, com o aluguel etc. Ou seja, uma coisa é renda dos ricos. A PNAD, por exemplo, não pergunta qual o patrimônio, mas sim qual a renda. Assim, a riqueza não é capitada. Assim, o Piketty começa a cruzar um conjunto de dados, como as contas nacionais, as próprias pesquisas de domicílio e o Imposto de Renda, e disso começa a olhar qual o tamanho da riqueza. Essa metodologia escancara um dado que a gente não conseguia enxergar antes, comparando países, que revela um acúmulo de riqueza gigantesco no Brasil. Portanto, um estoque de desigualdade. Só que ele revela um lado da desigualdade, que é o que acontecia com os ricos, não com os pobres. O Imposto de Renda, por exemplo, não capta a população de baixa renda.

Mas, o que ele traz de novo: ele mostra que a riqueza dos ricos aumentou mais ainda no momento recente da história aqui no Brasil e no resto do mundo. E outra coisa importante levantada: ao contrário do que as pessoas diziam, a meritocracia, o esforço, o fruto do próprio trabalho etc., não leva ninguém a ficar mais rico. Quem ficou mais rico foram os filhos e os netos dos ricos, ou seja, foram aqueles que já eram ricos. Infelizmente, a riqueza que aumentou não vem do empreendedorismo, mas dos rendimentos, da taxa de juros, ou seja, é uma riqueza inativa, não vem da produção de bens, da criatividade, da inovação… Aquilo que era valorizado no capitalismo, que era o empreendedor, isso deixou de ser importante na atual fase do capitalismo. As pessoas não ficam ricas porque são empreendedoras, mas sim porque especularam no mercado financeiro.

Outro aspecto muito importante levantado pelo Piketty é que esse patrimônio precisa ser tributado, ou seja, é necessário diminuir o nível de tributos sobre o consumo e aumentar sobre o patrimônio e a herança para que sobre dinheiro para educação, saúde, habitação etc., para reduzir desigualdades. Só tem um jeito de investir mais: aumentando a renda do Estado para fazer essa distribuição a fim de diminuir essa lacuna que só aumenta.

Então, a gente tinha uma primeira visão com o Gini, que trazia um olhar sobre a desigualdade. Depois veio o Piketty e agrega outro olhar, o que aconteceu com a renda dos ricos, e agora o objetivo do nosso trabalho é agregar mais uma fatia, dizendo: vamos olhar outras coisas que também são importantes porque a desigualdade não é somente o que se acumula, é também o que é patrimônio para o rico e o que é patrimônio para o pobre. E também acesso a alguns direitos, que no Brasil essa diferença é escandalosa.

redeGIFE: As outras faces dessa desigualdade, então, que, por vezes, não se mostra ou é naturalizada na nossa sociedade brasileira são os acessos a direitos?

Tereza – Sim. Precisamos lembrar que a desigualdade de acesso a serviços de educação na França, por exemplo, não é mais preocupação porque já solucionaram isso desde o século XIX. Mas no Brasil é, porque uma parte enorme das crianças pobres acabam saindo da escola antes de terminar o Ensino Fundamental. Não dá para discutir a desigualdade só olhando a riqueza e a distribuição da riqueza do ponto de vista do dinheiro.

Isso vale, inclusive, na comparação de renda de dois países tão diferentes como a Inglaterra e o EUA, mesmo sendo os dois ricos. Na Inglaterra, o pobre tem acesso à saúde pública e nos EUA não.  Ou seja, a pessoa que ganha a mesma coisa nos dois países, nos EUA terá de gastar mais porque, não tendo acesso à saúde pública, terá que investir num plano.
O que estou dizendo é que, até quando comparamos renda, é preciso olhar para esses serviços que são renda indireta, como a saúde pública, a educação pública, acesso a saneamento básico e a um conjunto de bens e serviços.

Precisamos ir devagar com esse tipo de comparação sobre renda entre países, que é frágil, e não diz nada sobre nada.

Na pesquisa que fizemos, tentamos justamente agregar esse terceiro olhar, sobre acesso a direitos. Claro que o Brasil continua sendo um dos países mais desiguais do mundo, mas queremos mostrar que, mesmo com essas características, se olharmos o país em 2002 e agora, ele é totalmente diferente. A desigualdade reduziu violentamente.

redeGIFE: Mas, mesmo com a redução dessa desigualdade, porque ainda, em 2018, o Brasil é capaz de deixar tantos para trás?

Tereza – Porque a desigualdade é tão gigantesca que precisaria de mais tempo para conseguir avançar na sua redução e em mais medidas. Então, estamos propondo olhar a desigualdade em relação ao acesso à educação, à água, à bens e serviços. Isso não é importante para os ricos, não faz diferença nenhuma para a renda dele se o plano de saúde custa 5, 10 ou 20 mil reais. Mas, para a pessoa pobre, pode significar até 20% da sua renda. Precisamos olhar estes aspectos que são renda para os brasileiros.

Estamos propondo olhar para o filme e não para a foto. Mostrar o que veio acontecendo, e que a desigualdade pode ser mudada. E isso é importante porque se só ficarmos falando que o Brasil continua sendo o mais desigual, não resolve nada. As pessoas não se mobilizam. Parece que nada que façamos vai fazer diferença, que não vale a pena. E não acredito nisso. Vale muito a pena. Olharmos a quantidade de negros que foram incluídos na educação, no saneamento, é gigantesca. São milhões de brasileiros. Os números surpreenderam todo mundo porque ninguém estava olhando isso. Não é pouca coisa vermos que 38 milhões de negros passaram a ter acesso à água de qualidade. O dado sobre saneamento é chocante: o que foi feito seria como ter colocado saneamento em metade da França em 10 anos. Ou seja, essa não é uma questão menor, secundária. São questões estruturais alterar saneamento, por exemplo.

Uma pessoa desempregada sem energia, sem água, sem saneamento, sem os filhos na escola, sem acesso à saúde, é totalmente diferente de uma pessoa desempregada, mas com acesso à água, à saúde, com filhos na escola podendo ter merenda escolar pelo menos uma vez no dia. Isso muda estruturalmente a pobreza no país.

redeGIFE – E isso vale para acesso a bens de consumo, inclusive?

Tereza – Com certeza. Às vezes, as pessoas acham, por exemplo, que acesso a bens de consumo é algo menor. Mas, como pode, mais da metade dos pobres no Brasil, em pleno século XXI, em 2002, não ter geladeira? Estamos num período da história onde a Ciência avançou tanto e, ao mesmo tempo, estamos falando do direito a tomar um banho quente, ou seja, direito do século XIX? E como pode dizer que isso não é direito a uma parcela da população? E não estamos falando de pessoas sem trabalho. Isso porque, no Brasil, a pessoa não é pobre porque não trabalha. Essas 40 milhões de pessoas que passaram a ter acesso à água trabalhavam e não conseguiam ter saneamento.

As pessoas falam: ‘ah, é pobre e tem telefone celular?’. Ter celular é, muitas vezes, o meio dessa pessoa conseguir gerar renda. Ter acesso à geladeira, por exemplo, é segurança alimentar. Ter geladeira é ter acesso à saúde, conseguir reduzir a diarreia das crianças, pois pode manter o leite dois a três dias, poder planejar a alimentação da família.  Estamos falando de coisas muito básicas e que eram privadas a essa população pobre.

redeGIFE: Vocês, inclusive, consideram este acesso ao bens e serviços como se fossem ‘bens de capital’. É isso?

Tereza – Vemos o caso das cisternas, que duram uns 30 anos, em média. Para um agricultor familiar eu diria que isso é um meio de capital. Se você for pegar o conceito de bem de capital econômico não é. No entanto, se ele não tiver água e energia elétrica, ter um trator, que seria um bem de capital, não adianta nada. Ter água e energia é tão importante quanto ter um trator.  Seria um bem de capital porque é o que está viabilizando a sua produção.

Esse agricultor poder usar a força de trabalho com água e energia elétrica, poder plantar a mandioca, ter uma máquina de fazer farinha e vender na feira, vai melhorar muito a sua vida. Sem água e luz nem seria viável essa produção.

A gente não está conseguindo medir isso. Ninguém coloca lá no patrimônio desse pobre tal bem. Até agora, estes bens e direitos não estão sendo medidos e precisamos nos apropriar dessa informação.

A população não ter morrido de fome, ter tido acesso ao ensino fundamental, à água de qualidade, não fez nada de diferença? Eu acho um absurdo dizer que não. Seria uma visão muito simplista e errada, inclusive, avaliarmos apenas se a distância entre os mais ricos e os mais pobres diminui, seja em qualquer sentido que se queira dar, seja no econômico ou no social.

Sabermos que 38 milhões de pessoas passaram a ter acesso à água, os jovens terem acesso à universidade, as mulheres terem melhorado de vida, são dados que nos interessam do ponto de visita econômico, social e ambiental. Isso interessa para o país que vamos ser daqui a 10 anos.

redeGIFE – Olhando um pouco mais os dados vemos, por exemplo, que em 2002, o acesso à água de qualidade chegava a quase 90% do total da população brasileira. Porém, ao colocar a lente nos mais pobres, o quadro muda drasticamente: menos da metade (49,6%) dos 5% mais pobres tinham garantia de acesso à água de qualidade. Essa lupa que utilizaram mostra uma desigualdade ainda mais latente e também avanços ainda mais reveladores para esta faixa da população. O olhar e ação do Estado para reverter desigualdades precisa ser focalizado em grupos específicos? É preciso fazer escolhas? É uma opção estratégica?

Tereza – Na verdade não. Vamos olhar o exemplo da energia elétrica. A proposta da política não foi buscar ter energia para os mais pobres. Mas, a política pública que levava energia para a população não chegaria aos mais pobres do jeito que ela era. Não é focalizar, pois seria dizer que algo seria feito só para dar aos mais pobres. E não é isso. Mas o contrário. Todo mundo já teve, mas os mais pobres não tiveram. No caso do meio rural, por exemplo, o processo de expansão da rede de energia antes prevista não chegaria aos mais pobres, porque tinha que ser solicitada e paga. Na cidade, por exemplo, pagamos pela ligação de energia que passa em frente à nossa casa. Nesta mesma lógica, o agricultor rural teria que pagar o acesso da propriedade até o linhal – com diversos quilômetros – e isso nenhuma pessoa de classe média, inclusive, conseguiria pagaria porque é caríssimo. Se ele tivesse que pagar desta forma não ia ter energia elétrica hoje e nem daqui a 200 anos. Ou seja, tivemos que fazer um programa diferente para que os pobres no meio rural tivessem acesso a esse direito assim como outros tiveram.

Outro exemplo: eu quero educação para todos. Precisamos lembrar que a educação em uma escola de periferia às vezes custa mais porque antes não tinha asfalto, não passava linha de ônibus e etc. Então, antes de mais nada, será preciso levar asfalto e linha de ônibus para lá. Não adianta ter escola no centro da cidade e obrigar a família pobre a se deslocar para um lugar que não é onde mora. Isso implicaria alguém da família não poder trabalhar para poder levar e buscar os filhos na escola.
Isso significa que, para que um bem e um serviço público chegue aos mais pobres, você precisa construir acessos que muitas vezes não são idênticos aos que são oferecidos aos centros.

O exemplo de cisternas também é ótimo. Não é preciso de cisternas para todos, mas somente no semiárido para a população que vive em áreas isoladas. Assim, vai ter programa de cisternas no Nordeste, no Centro-Oeste. Ou seja, é uma metodologia diferenciada de acesso à água num território onde não seria viável levar a água encanada. Assim, não é porque está focalizando no Nordeste. Mas é dar para aquelas pessoas o que conseguiu dar para todos até então.

Precisamos olhar para os mais pobres. As Nações Unidas recomendam hoje justamente fugir das médias. Quando eles dizem na Agenda 2030 que é preciso ‘não deixar ninguém para trás’, essa é a recomendação: não olhe a média porque ela te engana. É preciso olhar o específico.

redeGIFE – Frente a este cenário levantado pela pesquisa, como você percebe o papel e a responsabilidade dos investidores sociais – fundações e institutos, sejam eles empresariais, familiares, comunitários ou independentes – na busca pela redução das desigualdades e promoção da justiça social?

Tereza – Eu foco muito a minha fala no papel do Estado, pois acho que as grandes alterações que precisamos ter no país são obrigações do Estado, como as questões de saúde, educação etc. Mas eu não acho pouco relevante o esforço de pessoas físicas que tem trabalhado com filantropia e a agenda social das empresas. É algo que deve ser valorizado.

Porém, acho que o dinheiro das empresas muitas vezes é mal gasto. Algumas empresas distribuem cestas de alimentos, por exemplo, ou fazem aquelas ações pontuais em uma creche. Este tipo de iniciativa pode ter uma certa mitigação no território, mas objetivamente não tem um impacto real. O que deveria ser discutido é o que essa empresa pode fazer para alterar estruturalmente a vida destas famílias.

Acredito que as empresas deveriam incorporar estes públicos no seu próprio processo de produção. É mais interessante para o país, por exemplo, que uma rede de supermercado passasse a investir em como comprar produtos da população pobre, ao invés de doar alimentos. Se eles viabilizarem que os produtores pobres produzam e vendam com um selo diferente, por exemplo, traria um ganho para a imagem da empresa e, ao mesmo tempo, poderia alterar estruturalmente o que está acontecendo em um determinado território.

E cada empresa teria uma forma de encarar em como incorporar no seu processo, como fazer isso de forma a alterar a realidade. Assim elas poderiam de fato estar colaborando com a redução das desigualdades.

redeGIFE – E como ficam estas discussões frente ao cenário atual de crise instaurada no país? Em dezembro de 2017, por exemplo, o IBGE, divulgou que um quarto da população brasileira viveu abaixo da linha de pobreza em 2016. Corremos o risco de voltar aos patamares anteriores? Essa crise traz uma série riscos de estagnar a conquista destes direitos e ainda promover uma série de retrocessos? Qual o impacto destas opções que estão sendo feitas agora nos próximos anos?

Tereza – Fiz um levantamento agora comparando os mesmos dados que utilizamos na pesquisa e alguns resultados de 2016. Pelos menos critérios, a extrema pobreza volta aos patamares de 2006. Ou seja, o esforço de reduzir a desigualdade é um, mas para aumentar é muito mais rápido. Isso do ponto de vista da renda. Claro que do ponto de vista dos acessos não, pois não é algo que muda tão rápido: não estamos tirando cisternas, tirando fio de luz das pessoas etc. Porém, na medida que a população cresce, se não continuarem ampliando saúde, educação, rede de energia etc., estes direitos também vão retroceder. A gente saiu de 2,5% para 4,9% de extremamentes pobres em 2016. É dramático!

A tendência das reformas que estão sendo discutidas é aumentar ainda mais as desigualdades. Elas restringem recursos para educação, saúde e previdência. Daqui a pouco, o que a gente não tinha mais no país voltará a ter, que são os idosos na rua, em situação de indigência.

Uns dizem que é bom porque a inflação está diminuindo, mas isso é porque o país está diminuindo a capacidade de produção: se está diminuindo a demanda, diminui a inflação, é fato.

O Brasil tem um potencial que poucos países têm: que são as 208 milhões de pessoas que podem consumir aqui dentro. Acabar com a renda dessa população é ruim para a dinâmica econômica. A gente não está construindo um país mais igual, mas sim só aumentando as desigualdades, reduzindo um potencial de consumo no país. E isso é ruim para o setor empresarial produtivo. Pode ser bom para os rentistas, que não estão nem aí para o país, querem ganhar aqui ou especulando em qualquer outro país. Mas, para quem produz no Brasil, é ruim. Só que os empresários perderam essa perspectiva, lamentavelmente.

redeGIFE – E o que é possível fazer? Qual é o chamado para reverter esse risco? Quais opções políticas o país precisa fazer para continuar progredindo?

Tereza – O esforço tem que ser para o país voltar a crescer. Só que não vamos voltar a crescer aumentando desigualdades. O próprio Fundo Monetário Internacional diz isso: aumentar a desigualdade tem impacto na taxa de desenvolvimento. Vamos prestar atenção! O Brasil está percorrendo um caminho hoje que os próprios donos no dinheiro do mundo não aconselham desde década de 90. Essa é uma agenda atrasada, que já foi aplicada no Brasil e não deu certo. Já tomamos esse remédio e o resultado foi ficar mais doente. O país passou dez anos estagnado na década de 90. De 90 a 2002 o Brasil passou congelado, com esse modelo de corte de gastos que está sendo ressuscitado agora. E não estou falando do ponto de vista de justiça fiscal, social. Mas sim do ponto de vista do empresário que deveria se preocupar com o país. Para quem produz, interessa muito o que acontece com o conjunto da população brasileira. E no caso do Brasil os pobres são a maioria da população.

Dados da pesquisa ‘Faces da desigualdade’

Confira os principais resultados do estudo:

Educação

  • Em 2002, somente 10,7% dos jovens mais pobres ultrapassavam o muro dos que conseguiam chegar ao ensino médio na idade Com o aumento de 264%, este patamar chegou a 39%.
  • No período de 2002 a 2015, o acesso ao ensino superior, incluindo mestrado e doutorado, foi ampliado para toda a sociedade. Enquanto que o acesso ao conjunto da população quase dobrou, para os 20% mais pobres foi multiplicado 23 vezes.
  • Em 2002, menos de 7% dos mais pobres concluíam o ensino fundamental. Após 13 anos, esse índice passa para 30,3%.

Infraestrutura

  • Em 2002, o acesso à água de qualidade chegava a quase 90% do total da população brasileira. Porém, menos da metade (49,6%) dos 5% mais pobres tinham garantia de acesso à água de qualidade. No ano de 2015, o percentual entre os 5% mais pobres progrediu para 76%. A ampliação beneficiou o conjunto dos brasileiros e foi 7 vezes mais rápida entre os 5% mais pobres, ou seja, enquanto para o total da população aumentou 7%, para os mais pobres foi ampliado em 53%.
  • Em 13 anos, água de qualidade chegou a quase 10 milhões de novas famílias do Norte e Nordeste – equivalente a quase uma Argentina.
  • O acesso ao escoamento sanitário mais do que dobrou entre os 5% mais pobres entre 2002 e 2015, resultando em uma ampliação seis vezes mais rápida do que para o conjunto da população. Ou seja, enquanto para a população como um todo aumentou 18%, para os mais pobres o avanço passa de 114%.
  • No ano de 2002, quase 19% da população entre os 5% mais pobres não conheciam o que é conviver com eletricidade em suas casas. O acesso à energia avançou sete vezes mais rápido entre os 5% mais pobres.

Habitação 

  • Os dados da Pnad, no período 2002 a 2015, expõem a situação de 16,1% das famílias pertencentes aos 5% mais pobres, que residiam em domicílios precários, sem paredes de alvenaria, madeira ou revestimento adequado. Entre os mais pobres, o número de famílias por esse tipo de domicílio caiu para 7,5%, sendo reduzido em mais de 50% e beneficiando lares chefiados por mulheres e negros.

Bens de consumo

  • Em 2002, o acesso a refrigerador ou freezer chegava somente a 44,1% dos lares mais pobres. O crescimento neste segmento foi exponencial passando para 91,2%.
  • O crescimento do número de domicílios com geladeira ou freezer foi 9 vezes mais rápido entre os 5% mais pobres.
  • Foi significativa a ampliação de lares no Brasil com máquina de lavar roupa no período de 2002 a 2015, sendo que o maior crescimento ocorreu entre os 5% e os 20% mais pobres. No ano de 2015, constata–se que 18,1% dos domicílios mais pobres contam com esse bem de consumo, sendo ainda um patamar muito baixo.
  • A popularização da presença dos aparelhos celulares entre os 5% mais pobres cresce de 5,1% em 2002 para 79,3% em 2015. E entre os 20% mais pobres, a ampliação foi 8,7% para 86,6%, índice muito próximo ao do total de domicílios, que atingiu 91,2%.
  • Segundo estudo, 91% dos internautas no Brasil acessam a web via celular. Apesar de ainda baixo, cresceu oito vezes mais rápido o acesso dos mais pobres a microcomputadores conectados na internet.
  • Em 2002, os lares com computadores ligados à rede chegavam a uma minoria dos lares de famílias negras, sendo que 81% dos computadores conectados à internet estavam em lares de famílias brancas. Em 2015 a diferença ainda permanece, mais muito menor. São 57,5% entre os brancos e 41,5% entre os negros, com uma redução da iniquidade, com mais de 33 milhões de pessoas tendo este bem que representa informação, oportunidade de trabalho e lazer.

Desigualdade racial

  • Entre os jovens negros houve um crescimento de 117%, entre 2002 e 2015, com novos 1,8 milhão de estudantes na escola na idade certa.
  • Enquanto os brancos aumentaram sua presença na universidade de 1,8 milhão para 2,3 milhões de pessoas, com ampliação de 26%, os negros passaram de pouco mais de 400 mil para 1,6 milhão de jovens. O aumento foi de 268%.

Saúde

  • A mortalidade Infantil (em crianças menores de 1 ano) está diminuindo. De 2002 a 2015 saiu de 23,4 por mil nascidos vivos para 12,9. A queda foi mais acentuada no Norte e Nordeste, exatamente onde os índices eram maiores.
  • Em 2002, a cobertura populacional em atenção básica era de 31,8% e em 2015 passou para 63,2%.
  • Aumento de 39% de gestantes com 7 ou mais consultas de pré-natal
  • Atendimento na atenção básica de crianças de 1 a 4 anos cresceu 52%

Renda, pobreza e desigualdade

  • O crescimento real da renda do conjunto da população chegou a 38% e foi ainda mais acentuado entre os mais pobres. A renda dos 20% mais pobres cresceu quase 4 vezes mais rápido que a dos 20% mais ricos.
  • Em 2002, os pobres crônicos no Brasil somavam 9,3% da população, enquanto que em 2015 o percentual é reduzido para o índice de 1%, mesmo o país já estando sob os efeitos da crise internacional.
  • Entre as crianças de 0 a 3 anos a pobreza crônica chegava a 16,6%, em 2015, é registrado um patamar de 2,0%.
  • A pobreza entre os negros é reduzida de aproximadamente 15% para 1,5%.
  • Em 2002, 20% dos nordestinos eram pobres crônicos, ou seja, um em cada cinco (índice dez vezes maior que o Sudeste). Ao final de 2015, o Nordeste chega em 2,6%.

 

Fonte: GIFE.