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Em 2018, pela primeira vez em nove anos, a participação de empresários entre 18 e 24 anos no Brasil superou a de outras faixas etárias, segundo dados do Global Entrepreneurship Monitor (GEM). Um quarto dos jovens brasileiros nessa faixa etária se autodenominam empresários, o que representa a taxa mais alta em países da América Latina e o BRIS (Brasil, Rússia, Índia e África do Sul). Dos 42 países que participaram da pesquisa do GEM, o Brasil ficou em terceiro lugar (25%), atrás apenas do Irã e da Jamaica (28%).

Essa alta taxa de empreendedorismo entre os jovens não reflete um avanço econômico, social ou cultural dessa parcela da população brasileira, no entanto, segundo estudo de Sergio Bulgacov, professor da FGV-EAESP. O estudo foi realizado em conjunto com Yára Lúcia M. Bulgacov, Sieglinde Kindl da Cunha, Denise de Camargo e Maria Lucia Meza. “Pelo contrário, essa marca específica de empreendedorismo está associada a condições de trabalho precárias”, explicam os autores do estudo. Seu trabalho, intitulado “O jovem empreendedor no Brasil: a busca para conseguir algo ou uma fuga da exclusão”, foi publicado na Revista de Administração Pública em 2011.

Há sinais de que os jovens estão encontrando cada vez mais dificuldades para entrar no mercado de trabalho, e que, consequentemente, não têm outra alternativa senão se tornar empreendedores. Segundo dados da COPAL/Pun/Obit, a taxa de desemprego entre jovens no Brasil foi 3,2 vezes maior que entre adultos, considerando mudanças no mercado de trabalho entre 1992 e 2006. Além disso, no mesmo período, 59% dos profissionais entre 16 e 24 anos de idade não possuíam contrato de trabalho, comparado com 51% dos adultos. Segundo os pesquisadores, “essa realidade mostra que as oportunidades de trabalho para essa faixa etária são restritas, e esse é um dos fatores que explica o aumento da posição dos jovens no panorama do empreendedorismo no Brasil.”

Durante o período entre 2002 e 2008, apenas 17% dos jovens empreendedores tinham mais de 11 anos de educação formal e 80% recebiam menos de seis salários mínimos. Na análise dos autores, o baixo nível de educação reflete-se na possibilidade reduzida de sucesso para os empreendimentos dos jovens empreendedores. Mais de 50% destes jovens estão envolvidos em empresas de serviços orientadas para o consumidor, que são consideradas de baixa produtividade e exigem pouco em termos de qualificações e experiência. Incluídos nesta classificação de atividades estão os serviços pessoais, os serviços de venda ambulante, limpeza e conservação.

Por outro lado, os dados do GEM revelaram que os chamados “empresários por oportunidade”, jovens que concluíram cursos superiores e estabeleceram uma empresa para obter maior independência ou aumento de renda, também representaram 28% de todos os empreendedores brasileiros. Ou seja, a mesma proporção de “empresários por necessidade”. Os “empresários por oportunidade” são diferenciados de “empreendedores por necessidade”, pois têm renda mais alta e mais escolaridade e, geralmente, estabelecem negócios que exigem atividades mais especializadas. Esses negócios incluem serviços orientados para a empresa, como empresas de consultoria; negócios baseados em tecnologia; e serviços específicos, como contabilidade, suporte jurídico e TI.

Embora não seja particularmente representativa, a proporção de serviços orientados para empresas dobrou entre 2001 e 2008. “Esse aumento pode mostrar uma tendência de jovens seguirem o caminho de mais atividades que exigem melhores qualificações devido a uma melhoria na educação nos últimos anos”, diz o estudo. No entanto, os pesquisadores enfatizam que, mesmo que os jovens “empresários por oportunidade” tenham uma vantagem relativa, a falta de experiência e fundos para uso no empreendimento também levam a um alto percentual de falhas, que ocorrem nos primeiros meses do ano de operações.

Fontes: FGV, GEM e COPAL.